Há jogos que tentam reinventar o RPG. Outros tentam reinventar jogos musicais. Deathbulge: Battle of the Bands simplesmente olha para os dois, mistura tudo numa garagem cheia de amplificadores, joga um ornitorrinco skatista no meio da confusão e decide que isso faz sentido.
E, surpreendentemente… faz.
Desenvolvido a partir da webcomic criada por Dan Martin, Deathbulge é aquele tipo raro de indie que não tenta parecer maior do que é. Em vez disso, abraça sua personalidade completamente absurda e constrói um RPG de turnos extremamente divertido, recheado de humor inteligente, sistemas criativos e personagens que conseguem ser ridículos e carismáticos ao mesmo tempo.
A premissa já entrega o tom: batalhas de bandas são resolvidas literalmente na pancadaria, onde riffs de guitarra, solos e batidas de bateria se tornam armas capazes de destruir monstros, rivais e praticamente qualquer coisa que fique no caminho.
E isso é apenas o começo.
| O que você precisa saber antes de subir ao palco
- RPG de turnos com sistema ATB bastante inteligente.
- Chutar portas é praticamente um esporte nacional dentro do jogo.
- Sistema de classes musicais que altera habilidades e até o visual dos personagens.
- Pedais de efeito e patches substituem equipamentos tradicionais.
- Humor constante, diálogos excelentes e um universo completamente sem noção.
- Trilha sonora fantástica, mas sem mecânicas rítmicas durante o combate.
| Trailer
| Quando a personalidade vale mais que gráficos realistas
Esqueça castelos medievais genéricos.
O mundo de Deathbulge parece uma HQ que resolveu ganhar vida sem pedir autorização para ninguém.
Cada cenário transborda personalidade. NPCs esquisitos aparecem a todo momento, criaturas improváveis convivem naturalmente e absolutamente tudo parece existir apenas porque alguém perguntou:
“Mas… por que não?”
A banda Deathbulge também ajuda bastante.
Faye tenta manter um mínimo de sanidade enquanto seus colegas fazem exatamente o contrário.
Ian é dramático num nível quase artístico.
Já Briff consegue transformar ingenuidade em uma habilidade especial.
Os diálogos funcionam muito bem justamente porque nunca tentam ser excessivamente sérios. O humor surge naturalmente, sem depender apenas de memes ou referências fáceis.
E existe uma pequena obsessão que rapidamente vira uma das melhores piadas recorrentes do jogo: portas.
Você literalmente evolui sua habilidade de arrombá-las.
Sim.
Existe progressão para isso.
E vale cada ponto investido.
| Um RPG de turnos que sabe brincar com a própria fórmula
Na superfície, Deathbulge utiliza um sistema relativamente tradicional de Active Time Battle.
Mas basta alguns combates para perceber que existe algo diferente acontecendo.
O destaque fica para os Measure Effects, pequenos modificadores espalhados pela linha do tempo.
Enquanto os personagens avançam até seu turno, eles atravessam efeitos que podem causar queimaduras, bônus temporários ou outras alterações antes mesmo da ação acontecer.
O detalhe interessante é que você pode trocar o personagem ativo durante essa fila.
Na prática, isso permite colocar alguém mais resistente para absorver um efeito negativo ou reposicionar toda sua estratégia poucos segundos antes do ataque acontecer.
É uma pequena ideia que adiciona uma boa camada tática sem complicar desnecessariamente o combate.
O resultado é um RPG que permanece acessível, mas recompensa quem realmente presta atenção no posicionamento da equipe.
| Equipamentos? Aqui o rock resolve tudo
A customização também foge completamente do padrão.
Espadas?
Armaduras?
Escudos?
Nada disso.
As classes representam estilos musicais.
Você pode transformar seus integrantes em Goths, Headbangers, Buskers, Show-Offs e diversas outras especializações, alterando tanto habilidades quanto a aparência durante toda a aventura.
Os tradicionais acessórios são substituídos por pedais de efeito.
Delay.
Distorção.
Modulação.
Cada pedal altera propriedades dos ataques, adicionando cura, dano em área ou efeitos especiais.
Outro sistema bastante criativo é a Battle Jacket.
Em vez de equipamentos lendários, você costura patches encontrados pelo mundo em sua jaqueta, liberando bônus passivos permanentes.
Até o gerenciamento de itens recebeu uma solução inteligente.
Ao invés de carregar dezenas de poções descartáveis, você compra produtos de merchandising da própria banda.
Depois da compra, eles permanecem disponíveis para sempre, consumindo apenas um recurso compartilhado chamado Stock, que se recupera naturalmente.
É uma solução elegante para eliminar aquela administração cansativa de inventário que tantos RPGs insistem em manter.
| A trilha sonora brilha… mas poderia ir além
Aqui aparece a única grande contradição do jogo.
Toda a identidade de Deathbulge gira em torno da música.
Narrativa.
Visual.
Piadas.
Progressão.
Classes.
Equipamentos.
Tudo respira rock.
Por isso é estranho perceber que o combate praticamente ignora esse conceito na hora da jogabilidade.
Quem espera algo próximo de Hi-Fi Rush ou Crypt of the NecroDancer provavelmente vai estranhar.
Os ataques possuem animações excelentes e muito estilo, mas continuam funcionando exatamente como qualquer RPG tradicional por turnos.
Você não precisa acompanhar ritmo.
Não precisa acertar tempo.
Não existe recompensa por tocar “na batida”.
A música funciona como tema e identidade estética, mas não como mecânica ativa.
Não chega a prejudicar a experiência, mas fica aquela sensação inevitável de potencial desperdiçado.
| Como toca no Xbox
No Series X, Deathbulge entrega exatamente o que promete.
A apresentação é extremamente consistente, os tempos de carregamento são rápidos e toda a direção artística mantém excelente qualidade do início ao fim.
A campanha também encontra um ótimo equilíbrio.
São aproximadamente 12 a 15 horas para concluir a história principal, podendo ultrapassar facilmente as 20 horas para quem decidir explorar missões secundárias, coletáveis e todos os segredos espalhados pelo mapa.
E vale destacar a trilha sonora.
Mesmo sem utilizar ritmo como mecânica, ela é facilmente um dos maiores acertos do jogo.
Cada faixa ajuda a construir a personalidade única desse universo maluco.
| Onde o som flui e onde da vontade de desligar o radio
Prós
- Humor inteligente e extremamente consistente.
- Personagens muito carismáticos.
- Excelente direção artística inspirada na webcomic.
- Sistema de customização bastante criativo.
- Combate estratégico com boas ideias.
- Trilha sonora excelente.
Contras
- A música praticamente não influencia a jogabilidade.
- Alguns jogadores podem esperar mecânicas rítmicas que nunca aparecem.
- Ritmo inicial um pouco mais lento até todas as mecânicas serem desbloqueadas.
| Vale a pena jogar?
Sem dúvida.
Deathbulge: Battle of the Bands é aquele indie que conquista pela personalidade.
Ele não tenta competir com grandes RPGs em escala ou orçamento. Em vez disso, aposta em criatividade, humor e sistemas inteligentes, entregando uma experiência que consegue ser diferente sem parecer forçada.
A sensação constante é que os desenvolvedores tiveram liberdade para colocar absolutamente qualquer ideia maluca no jogo… e, surpreendentemente, quase todas funcionam.
A única oportunidade realmente perdida é não transformar sua excelente trilha sonora em parte ativa do combate.
Ainda assim, isso está longe de apagar seus inúmeros acertos.
Se você procura um RPG divertido, bem escrito e que não tenha medo de ser completamente absurdo, Deathbulge merece um espaço na sua biblioteca do Xbox.
| Gameplay
| Veredito de quem tocou com os grandes
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