Há duas formas de criar um quebra-cabeça memorável: copiar o que já funciona ou inventar uma mecânica tão diferente que faz o jogador reaprender a enxergar o cenário. Felizmente, Yerba Buena 🛒 escolhe a segunda opção.

Inspirado pela capacidade de fazer o cérebro trabalhar de títulos como Portal e The Turing Test, o jogo da Mad About Pandas pega algo que normalmente gera reclamações em fóruns e tickets de suporte — os famosos glitches — e transforma isso na alma da experiência. O resultado é um dos conceitos mais criativos que o gênero recebeu nos últimos anos.

Nem tudo funciona perfeitamente, mas quando funciona, é difícil não admirar a ousadia.

| O que você precisa saber antes de jogar

  • Mecânica principal baseada em copiar e transferir propriedades físicas.
  • Campanha com aproximadamente 10 horas de duração.
  • Narrativa metalinguística sobre um jogo abandonado pelos próprios desenvolvedores.
  • Quebra-cabeças que exigem observação e experimentação constante.
  • Ambientação psicodélica inspirada na San Francisco dos anos 70.
  • Alguns problemas técnicos comprometem o ritmo da experiência.

| Trailer

| Barb contra o abandono digital

Em vez de controlar um herói predestinado ou um salvador da humanidade, você assume o papel de Barb, uma NPC que descobre uma verdade inconveniente: ela vive dentro de um jogo que nunca foi terminado.

O mundo de Bay Angels está desmoronando sob o efeito de um fenômeno conhecido apenas como The Glitch. Objetos flutuam, estruturas desafiam a lógica e a realidade parece estar constantemente falhando.

O detalhe genial é que tudo isso possui justificativa narrativa.

Aquilo que normalmente seria visto como erro de programação vira elemento de mundo, de história e até de personalidade. É uma metalinguagem inteligente que conversa diretamente com quem já passou horas vendo NPCs atravessarem paredes ou carros voarem sem motivo em outros jogos.

A diferença é que aqui isso é intencional.

E funciona surpreendentemente bem.

| Ctrl+C, Ctrl+V e um doutorado em física improvisada

O verdadeiro protagonista de Yerba Buena 🛒 não é Barb.

É o Oscillator.

Essa ferramenta funciona como uma espécie de editor de propriedades físicas portátil. Em vez de disparar portais ou manipular gravidade diretamente, você copia características de um objeto e transfere para outro.

Parece simples.

Não é.

Você pode roubar o movimento de um carro e aplicá-lo a um bloco de concreto. Pode transformar uma parede sólida em névoa ao copiar propriedades gasosas. Pode pegar a elasticidade de um trampolim e transferi-la para uma mesa qualquer.

O resultado é uma sequência constante de momentos em que o cérebro para por alguns segundos e pensa:

“Espera… isso realmente vai funcionar?”

E geralmente funciona.

A melhor parte é que o jogo não demora para parar de segurar sua mão. Conforme novas possibilidades surgem, os desafios passam a exigir combinações cada vez mais criativas, levando o jogador a testar ideias que parecem absurdas à primeira vista.

Quando a solução finalmente aparece, a sensação é extremamente recompensadora.

| A arte de fritar neurônios sem parecer injusto

Existe uma linha muito fina entre um puzzle inteligente e um puzzle irritante.

Yerba Buena 🛒 consegue permanecer do lado certo dessa linha durante a maior parte da campanha.

Os desafios raramente dependem de sorte ou tentativa aleatória. Quase sempre existe uma lógica clara por trás da solução, mesmo que ela esteja escondida atrás de uma interpretação diferente do cenário.

O jogo constantemente incentiva o jogador a observar o ambiente de outra perspectiva.

Não é sobre encontrar uma chave para abrir uma porta.

É sobre descobrir que talvez a própria porta possa virar fumaça.

| Quando os bugs de mentira encontram os bugs de verdade

Aqui mora o maior problema do jogo.

A ironia é quase cruel.

Enquanto a narrativa celebra glitches e falhas como parte da identidade do universo, a versão de Xbox apresenta problemas técnicos reais que acabam confundindo as coisas.

Durante os testes, houve quedas de desempenho, engasgos ocasionais e alguns crashes inesperados que levaram diretamente para a dashboard do console.

Em situações onde várias propriedades físicas estão sendo manipuladas ao mesmo tempo, a engine claramente demonstra dificuldades para acompanhar o caos que ela mesma criou.

A mira do Oscillator também poderia ser mais precisa em momentos que exigem rapidez, especialmente em seções de plataforma mais movimentadas.

E se você ficar muito tempo preso em um quebra-cabeça, prepare-se para ouvir certas falas repetidas vezes. E depois mais algumas vezes. E mais algumas.

Como se o jogo estivesse tentando resolver o puzzle por você através do cansaço psicológico.

| O autosave carregou mais peso que alguns NPCs

Se existe um herói silencioso nessa aventura, ele atende pelo nome de autosave.

O sistema de checkpoints é extremamente generoso e evita que os problemas técnicos se transformem em algo realmente frustrante.

Quando alguma física resolve tirar férias e um objeto desaparece do mapa ou atravessa o chão, reiniciar a partir do último checkpoint normalmente resolve a situação sem perda significativa de progresso.

Isso não elimina os problemas.

Mas impede que eles destruam a experiência.

E faz bastante diferença.

| Uma cidade quebrada que merece ser visitada

Visualmente, Yerba Buena 🛒 aposta em uma estética psicodélica e fragmentada que combina perfeitamente com sua proposta.

A San Francisco digital dos anos 70 parece constantemente à beira do colapso, e isso ajuda a reforçar a sensação de estar explorando um software abandonado.

A trilha sonora acompanha muito bem essa identidade, criando uma atmosfera estranha, melancólica e, ao mesmo tempo, curiosamente acolhedora.

É o tipo de ambientação que consegue fazer um mundo quebrado parecer vivo.

| O que flui e o que trava

Prós

  • Mecânica de copiar e transferir propriedades físicas extremamente criativa
  • Quebra-cabeças inteligentes e satisfatórios
  • Narrativa metalinguística divertida e bem construída
  • Ambientação estilosa e memorável

Contras

  • Crashes e problemas de desempenho ocasionais no Xbox
  • Mira do Oscillator poderia ser mais precisa
  • Repetição excessiva de algumas falas durante os puzzles

| Vale a pena jogar?

Sim, principalmente se você é daqueles jogadores que adoram quando um jogo respeita a sua inteligência.

Yerba Buena 🛒 não tenta impressionar com explosões cinematográficas, árvores de habilidades infinitas ou mapas gigantescos cheios de colecionáveis espalhados por obrigação. O foco aqui é outro: apresentar uma ideia original e explorar essa ideia até as últimas consequências.

A mecânica do Oscillator é facilmente o grande diferencial da experiência. Poucos jogos recentes conseguem entregar aquela sensação genuína de descoberta que faz você parar por alguns segundos, olhar para a tela e pensar: “isso é genial”. Quando os sistemas funcionam em conjunto, os quebra-cabeças proporcionam exatamente esse sentimento.

Por outro lado, quem tem pouca paciência para puzzles mais complexos ou se irrita facilmente com problemas técnicos ocasionais talvez encontre algumas barreiras pelo caminho. Os travamentos e quedas de desempenho não chegam a arruinar a aventura, mas aparecem com frequência suficiente para merecer atenção.

No fim das contas, os acertos pesam mais que os tropeços. Em uma indústria cada vez mais confortável em repetir fórmulas conhecidas, Yerba Buena 🛒 escolhe correr riscos. E mesmo sem executar tudo perfeitamente, entrega algo muito mais valioso do que um jogo apenas competente: entrega personalidade.

Se você gostou de Portal, The Talos Principle, The Turing Test ou simplesmente procura um puzzle capaz de fazer seus neurônios trabalharem horas extras, essa é uma recomendação fácil.

Vale a pena jogar? Sim. Apesar dos problemas técnicos, a criatividade do gameplay e a inteligência dos puzzles fazem de Yerba Buena 🛒 uma das surpresas mais interessantes do gênero nos últimos tempos.

| O veredito de quem quebrou a cabeça

Yerba Buena 🛒

Yerba Buena 🛒 é exatamente o tipo de jogo que faz falta na indústria atual.
Em um mercado lotado de continuações, remakes e fórmulas recicladas até a exaustão, a Mad About Pandas teve coragem de construir toda uma experiência em torno de uma ideia realmente original.
A mecânica de manipulação de propriedades físicas é brilhante, os quebra-cabeças são inteligentes e a narrativa metalinguística consegue transformar glitches em algo muito mais interessante do que simples defeitos visuais.
Os problemas técnicos impedem que o jogo alcance todo o seu potencial, mas não conseguem apagar o brilho de uma proposta que raramente deixa de surpreender.
Se você gosta de puzzles que exigem criatividade, observação e aquela deliciosa sensação de descobrir uma solução impossível, Yerba Buena 🛒 merece um lugar na sua biblioteca.
8.0 /10
Jogabilidade 6.5
Gráficos 8.5
História 8.5
Trilha Sonora 8.0
Duração 8.0

Autor

  • Gamer por paixão, programador de profissão, tenta manter de pé o site com sangue e suor, passa a maior parte do dia lidando com codigos e o que resta divide entre família, jogos e postar alguma coisa sem sentido no blog em idioma estranho, sou importado aqui... Joga tudo desde FPS até walking simulator, mas os quebra-cabeças são a sua paixão.

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