Se um dia incluírem levantamento técnico do sofá ou maratona de seriados nas Olimpíadas, finalmente terei chances reais de conquistar uma medalha. Até lá, meu preparo físico continua sendo uma questão entre mim, o controle remoto e a gravidade.
Dança definitivamente não é a minha praia. Mas também não sou um completo novato nesse território: venho da época de Dance Central, quando o Kinect era um dos periféricos mais comentados da indústria, tanto pelas possibilidades quanto pelas ideias questionáveis que tentavam justificar sua existência.
É com essa bagagem que chego a Just Dance: Decades of Hits, um pacote adicional que aposta na nostalgia musical e reúne faixas de diferentes gerações, dos anos 70 até os anos 2020.
E aqui vale esclarecer algo antes que alguém compre o conteúdo achando que está levando um jogo completo para casa: Decades of Hits é um DLC, e exige o jogo base de Just Dance. A boa notícia é que não é necessariamente preciso comprar a edição completa para começar a dançar. A versão de teste gratuita de Just Dance oferece a estrutura básica da experiência e algumas músicas gratuitas, permitindo experimentar a jogabilidade antes de decidir se vale a pena investir em conteúdo adicional.
É uma diferença importante. Afinal, pagar por músicas extras é uma coisa; descobrir depois que comprou uma festa sem ter a chave da casa é outra.
| O jogo em passos de dança
- Um passeio por seis décadas: músicas de diferentes épocas para agradar gerações distintas, embora a seleção inevitavelmente deixe alguns hits de fora.
- É um DLC, não um jogo independente: exige o jogo base de Just Dance, mas a versão de teste gratuita oferece uma porta de entrada com a estrutura básica e algumas músicas gratuitas.
- Adeus, Kinect: o celular quebra o galho, mas não reproduz a mesma experiência de rastreamento corporal. Praticidade não é sinônimo de precisão.
- Diversão em grupo: é na companhia de amigos e familiares que a experiência ganha força. Dançar bem é opcional; passar vergonha é praticamente parte do contrato.
- Atividades extras e recompensas: os desafios com progressão e os itens para o avatar ajudam a dar mais motivos para continuar jogando.
- Experimente antes de comprar: se você ainda não conhece a franquia, teste a versão gratuita e confira se a seleção musical e o sistema de controle justificam o investimento no conteúdo adicional.
| Trailer
| Uma viagem musical por seis décadas
A proposta é simples: reunir músicas que marcaram diferentes gerações, cada uma com sua identidade visual, coreografias e aquele potencial de transformar uma reunião familiar em um espetáculo de constrangimento coletivo.
O repertório passeia por estilos e épocas diferentes, misturando clássicos que sobreviveram ao teste do tempo com faixas mais recentes. É uma tentativa de colocar várias gerações na mesma pista, seja para reviver memórias ou descobrir que aquela música que seus pais cantavam no carro continua sendo muito mais divertida do que você gostaria de admitir.
E esse é um dos méritos de Just Dance: a música funciona como uma ponte entre jogadores com gostos completamente diferentes. Enquanto alguém tenta reproduzir os movimentos de um hit contemporâneo, outra pessoa pode estar esperando há décadas pela oportunidade de dançar seu clássico favorito sem ser julgada.
Ou pelo menos sem ser julgada demais.
Naturalmente, a seleção também deixa espaço para reclamações. Sempre haverá aquela música que parece obrigatória e inexplicavelmente ficou de fora. Mas direitos musicais não são resolvidos com uma playlist e boa vontade. Licenciamento envolve contratos, disponibilidade e dinheiro — bastante dinheiro.
Isso não significa que toda ausência esteja justificada, mas ajuda a entender por que montar uma coletânea capaz de agradar a todo mundo é uma missão praticamente impossível.
Ainda assim, para quem procura variedade e músicas conhecidas por diferentes gerações, a proposta funciona. O problema é que o valor desse pacote depende diretamente de quanto você gosta das faixas incluídas. Se metade da seleção não conversa com seu gosto musical, seis décadas de história não vão fazer milagre.
| O DLC e a questão do jogo base
Decades of Hits é um conteúdo adicional de Just Dance, portanto depende da estrutura do jogo base para funcionar. Até aqui, nenhuma surpresa: DLC precisa de um jogo ao qual se conectar. O detalhe interessante é que, neste caso, você não precisa necessariamente comprar a versão completa de Just Dance.
A versão de teste gratuita já oferece a base necessária para acessar a experiência, além de algumas músicas gratuitas. Isso significa que você pode entrar no ecossistema, experimentar a jogabilidade e utilizar o conteúdo adicional sem precisar comprar outro pacote completo só para ter onde dançar.
Na prática, é uma diferença importante para o consumidor. O DLC continua sendo conteúdo adicional, mas a necessidade técnica de um jogo base não significa, obrigatoriamente, uma segunda compra.
É uma solução que reduz a barreira de entrada e permite investir apenas no conteúdo musical que realmente interessa. Claro, vale conferir a compatibilidade da versão disponível na sua plataforma e as condições de acesso ao pacote antes da compra.
Resumindo: é um DLC que exige a estrutura de Just Dance, mas a versão gratuita pode cumprir esse papel. Você paga pelo conteúdo adicional, não necessariamente por um segundo jogo completo. E, convenhamos, já basta pagar para dançar na sala; não precisamos transformar o primeiro passo de dança em uma coreografia financeira.
| Adeus, Kinect. Olá, celular – com algumas ressalvas
Quem jogou Dance Central com Kinect provavelmente se lembra de como era interessante ter um sistema capaz de acompanhar o corpo inteiro e avaliar os movimentos durante as coreografias.
O Kinect tinha limitações, evidentemente, mas oferecia uma experiência de rastreamento corporal que ia além de simplesmente verificar se você estava balançando o braço na direção correta.
Hoje, esse tipo de experiência ficou para trás no ecossistema Xbox. E é uma pena, porque jogos como esses demonstravam que sensores de movimento podiam ir muito além de uma curiosidade tecnológica.
A Ubisoft encontrou alternativas para manter a proposta viva: o smartphone pode funcionar como controle, com métodos que utilizam a câmera ou os sensores de movimento, conforme a opção disponível. No controle por movimento, por exemplo, o aparelho acompanha os movimentos da mão que o segura.
É prático? Sim. Resolve o problema de colocar todo mundo na pista sem exigir um periférico dedicado? Também.
Mas existe uma diferença importante entre praticidade e precisão.
O acompanhamento pelo celular não reproduz a leitura corporal completa que o Kinect oferecia. Dependendo do método utilizado, a experiência fica limitada aos movimentos captados pela câmera ou ao movimento do aparelho na mão do jogador.
Isso muda a relação com as coreografias e pode deixar a experiência menos convincente para quem gostava de acompanhar o desempenho com maior precisão.
É uma solução funcional, não uma evolução tecnológica. Resolve o problema de acessibilidade ao jogo, mas também deixa evidente o espaço que ficou vazio com o abandono do Kinect.
Para quem quer apenas dançar, rir e descobrir quem da família tem coordenação motora suficiente para não parecer um boneco de posto durante um vendaval, isso dificilmente será um obstáculo intransponível.
Para quem gosta de precisão e de acompanhar cada movimento, a diferença pesa mais.
| A diversão continua sendo o verdadeiro modo multiplayer
Existe uma característica em Just Dance que nenhuma tecnologia de rastreamento precisa resolver: a diversão não depende de todo mundo dançar bem.
Na verdade, às vezes ela funciona melhor quando ninguém dança.
É nesse contexto que o jogo brilha. A competição improvisada, as tentativas desesperadas de acompanhar os passos, as interpretações completamente pessoais de uma coreografia e aquele amigo que transforma qualquer movimento em uma ameaça à integridade dos móveis fazem parte do pacote.
A experiência é acessível porque não exige conhecimento prévio, domínio de controles complexos ou horas de aprendizado. Escolheu a música, começou a coreografia e pronto: em poucos segundos, todo mundo está participando.
E não importa se você acertou todos os movimentos ou se parece estar tentando espantar abelhas. O importante é entrar na brincadeira.
É uma ótima opção para encontros com amigos e reuniões familiares, especialmente porque o jogo consegue gerar diversão mesmo quando o desempenho dos participantes é absolutamente questionável.
Também existe uma proposta de exercício físico para quem deseja transformar a dança em atividade. Não vou fingir que isso substitui uma rotina de exercícios estruturada, mas é uma maneira mais divertida de sair do sedentarismo do que olhar para a esteira e negociar mentalmente mais quinze minutos de sofá.
| Modo Aventura – Porque aparentemente dançar não era suficiente
Uma das partes mais interessantes do conteúdo é a inclusão de uma estrutura narrativa, com desafios e atividades extras que dão um objetivo adicional às sessões de dança.
Em vez de apenas escolher uma música, executar a coreografia e partir para a próxima, o jogador encontra uma progressão que ajuda a manter o interesse e oferece recompensas para o avatar.
Não estamos falando de uma narrativa capaz de disputar espaço com um RPG de peso ou de uma trama que vá mudar a maneira como enxergamos a humanidade. Convenhamos: seria um pouco estranho esperar uma crise existencial entre dois passos de uma música pop.
A proposta é outra. As atividades extras complementam a experiência, quebram um pouco a repetição e dão aos jogadores mais motivos para continuar explorando o conteúdo.
As recompensas também ajudam a manter o interesse, especialmente para quem gosta de desbloquear itens e acompanhar algum tipo de evolução durante a jogatina.
É uma adição bem-vinda justamente porque não tenta transformar Just Dance em algo que ele não é. A estrutura extra complementa a dança em vez de competir com ela, dando mais contexto a uma experiência que tradicionalmente depende da música e da repetição das partidas.
| Onde a dança flui e onde pode escorregar
Prós
- Seleção musical que passeia por diferentes gerações.
- Experiência acessível, fácil de entender e divertida em grupo.
- A versão de teste gratuita permite experimentar a estrutura básica de Just Dance antes de comprar.
- Atividades extras e progressão que vão além da simples seleção de músicas.
- Boa opção para reunir família e amigos sem exigir experiência prévia.
Contras
- A ausência do Kinect deixa saudades para quem valorizava o rastreamento corporal mais completo.
- O controle pelo smartphone é prático, mas não reproduz a mesma experiência de acompanhamento dos movimentos.
- A seleção musical inevitavelmente deixa hits desejados de fora.
- O valor do pacote depende bastante de quanto você gosta das músicas incluídas.
| Vale a pena jogar?
Sim, especialmente com amigos ou família — mas comprar o DLC sem conferir primeiro se as músicas agradam é dar um passo de dança no escuro.
Não é uma revolução tecnológica, não vai transformar ninguém em atleta e tampouco vai resolver a saudade do Kinect. Mas oferece diversão acessível, momentos genuinamente engraçados e uma boa desculpa para levantar do sofá.
E, considerando meu histórico esportivo, fazer isso voluntariamente já merece uma medalha.
| Gameplay
Realmente pensa que vou me gravar jogando isso?
| Veredito de quem dançou que nem um anjo… caido no chão
Descubra mais sobre Gamerscore Brasil
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
