Alguns jogos fazem de tudo para conquistar você logo nos primeiros minutos. Outros parecem fazer exatamente o contrário.

The Mound: Omen of Cthulhu pertence ao segundo grupo.

Confesso: nos primeiros minutos eu já estava mentalmente preparando o texto do “mais uma oportunidade desperdiçada”. O prólogo é lento, pouco inspirado, a movimentação passa uma sensação estranha e toda a construção inicial parece uma coleção de clichês de terror que você já viu dezenas de vezes.

Foi uma das piores primeiras impressões que tive este ano.

Mas existe um detalhe importante: The Mound: Omen of Cthulhu parece fazer isso de propósito.

Quando finalmente entrei no modo cooperativo ao lado do parceiro Sgt Rock 1967, do site e canal Nós Nerds, ficou claro que aquele início não representava nem 10% do que o jogo realmente oferece. O verdadeiro horror só começa quando você acredita que entendeu as regras.

E aí descobre que nunca existiram regras.

| Em poucas doses de insanidade…

  • Um cooperativo que faz de tudo para esconder suas melhores qualidades nas primeiras horas.
  • A mecânica de sanidade não é enfeite: ela muda completamente a forma como você joga e confia nos aliados.
  • Explorar é fácil. O verdadeiro desafio é conseguir voltar vivo com os espólios.
  • O horror psicológico funciona muito mais pela tensão constante do que por sustos baratos.
  • O prólogo quase afunda a experiência, mas quem insiste encontra uma das surpresas cooperativas do ano.
  • Ideal para jogar com amigos… desde que você esteja disposto a abandoná-los quando Cthulhu aparecer.

| Trailer

| O maior inimigo não é o monstro. É a sua cabeça.

Esqueça sustos baratos.

O terror aqui funciona de uma forma muito mais inteligente: ele destrói sua confiança.

Em poucos minutos você começa a duvidar do cenário, dos caminhos, dos sons… e principalmente dos próprios companheiros.

A mecânica de sanidade não está ali apenas para pintar a tela com efeitos visuais bonitos. Ela altera completamente a forma como você joga.

Quando a insanidade aumenta:

  • sons e sussurros surgem em todos os lados;
  • corredores parecem mudar de lugar;
  • portas deixam de existir;
  • a iluminação engana sua percepção;
  • e, talvez o mais brilhante de tudo, seus próprios aliados podem parecer criaturas horrendas.

É nesse momento que nasce a paranoia.

Você aponta a arma para um amigo.

Ele aponta para você.

Nenhum dos dois tem certeza de quem realmente virou um monstro.

Poucos jogos conseguem transformar uma simples mecânica em algo que altera completamente a dinâmica entre jogadores. Aqui isso acontece de forma extremamente natural.

| O prólogo mente para você

Durante o começo da campanha tudo parece apenas uma caça ao tesouro relativamente comum.

Explorar.

Encontrar relíquias.

Levar para a carroça.

Ir embora.

Só que isso é praticamente um tutorial disfarçado.

Conforme novas missões aparecem, o jogo revela sua verdadeira identidade.

A cada incursão, o mapa se torna mais hostil, a sanidade cai mais rápido e o retorno até o ponto de extração passa a ser muito mais perigoso do que a exploração em si.

É uma mudança de ritmo extremamente bem construída.

Você percebe que o objetivo nunca foi simplesmente encontrar o tesouro.

Era conseguir voltar vivo.

| Extração nunca foi tão desesperadora

A estrutura lembra bastante os extraction shooters modernos, mas aplicada a um universo totalmente Lovecraftiano.

O ciclo funciona assim:

  • preparação da equipe no galeão;
  • escolha de contratos;
  • gerenciamento de equipamentos;
  • exploração das ruínas;
  • coleta de artefatos;
  • retorno até o ponto de evacuação.

No papel parece simples.

Na prática…

É um caos absoluto.

Quanto mais tempo você permanece explorando, maior é o desgaste mental da equipe.

Quando chega a hora de fugir, o mapa inteiro parece decidir que você não merece sair dali respirando.

As criaturas aparecem em quantidade.

Os recursos acabam.

A comunicação vira gritaria.

E alguém inevitavelmente pergunta:

“Tu realmente fugiu e me deixou pra trás?”

E bom, a resposta é “Obviamente sim”…

| Cooperação… até alguém enlouquecer

O maior acerto de The Mound não são os monstros.

É a forma como ele destrói a confiança entre os jogadores.

A comunicação deixa de ser apenas útil e passa a ser obrigatória.

Só que existe um pequeno detalhe.

Você nunca sabe se pode acreditar no que acabou de ouvir.

Quando a insanidade entra em cena, o jogo cria situações genuinamente engraçadas e desesperadoras ao mesmo tempo.

Em uma delas, precisei tomar uma decisão rápida durante a fuga.

Resultado?

O Sgt Rock acabou ficando para trás.

Peço desculpas publicamente.

Mas Cthulhu entende que sobrevivência vem antes da amizade.

Provavelmente.

| Atmosfera digna dos contos de Lovecraft

Quem gosta do universo criado por H. P. Lovecraft vai encontrar diversas referências muito bem trabalhadas.

O jogo evita exagerar na exposição e aposta muito mais na sensação constante de desconforto.

Os efeitos sonoros merecem destaque.

Fones de ouvido praticamente se tornam obrigatórios.

Os sussurros, ruídos distantes e pequenas distorções criam uma atmosfera sufocante durante praticamente toda a exploração.

Visualmente também existem bons momentos, principalmente quando a sanidade começa a afetar o ambiente.

É o tipo de terror que prefere brincar com sua percepção em vez de simplesmente colocar um susto na sua frente.

E isso funciona muito melhor.

| Nem todo culto é perfeito

Infelizmente, nem todas as escolhas acertam.

O maior problema continua sendo o início extremamente fraco.

Existe um risco real de muitos jogadores desistirem antes de descobrir onde o jogo realmente começa.

A movimentação ainda carece de um pouco mais de polimento.

O combate corpo a corpo também poderia transmitir maior impacto.

Além disso, algumas mecânicas importantes recebem explicações superficiais, obrigando o jogador a aprender na tentativa e erro.

O que, considerando o tema, talvez seja proposital.

Mas continua sendo frustrante.

| Onde a vista é boa e onde a insanidade pega

Prós

  • Mecânica de sanidade realmente influencia o gameplay.
  • Cooperação baseada em confiança… até ela desaparecer.
  • Excelente atmosfera de horror psicológico.
  • Loop de extração extremamente tenso.
  • Áudio impecável para construção de suspense.
  • Ótima adaptação dos elementos Lovecraftianos.

Contras

  • Prólogo passa uma impressão muito pior do que o jogo realmente é.
  • Movimentação ainda precisa de ajustes.
  • Combate corpo a corpo pouco impactante.
  • Tutorial e interface inicial explicam menos do que deveriam.

| Vale a pena jogar?

Se você abandonar o jogo durante o prólogo, provavelmente vai concluir que encontrou mais um cooperativo genérico tentando pegar carona no sucesso de outros títulos.

E estará completamente errado.

The Mound: Omen of Cthulhu esconde sua melhor versão justamente depois da pior primeira impressão possível.

Quando todas as mecânicas entram em funcionamento, surge uma experiência cooperativa extremamente diferente, onde o verdadeiro inimigo não é apenas aquilo que está escondido na floresta, mas também aquilo que sua própria mente começa a enxergar.

Poucos jogos conseguem transformar paranoia em mecânica.

Menos ainda conseguem fazer você desconfiar do próprio amigo enquanto tentam escapar vivos.

E isso, definitivamente, merece reconhecimento.

| Gameplay

| Veredito de quem viveu o terror

The Mound: Omen of Cthulhu

The Mound: Omen of Cthulhu é um daqueles jogos que quase sabotam o próprio sucesso. Seu prólogo entrega uma experiência morna, pouco inspirada e distante daquilo que realmente faz o título brilhar. É justamente por isso que muita gente corre o risco de desistir antes da melhor parte.
Felizmente, quem insiste é recompensado.
Quando as mecânicas de sanidade entram em ação e a cooperação passa a ser tão importante quanto a munição, o jogo revela uma personalidade própria. A paranoia deixa de ser apenas um efeito visual e passa a influenciar decisões, comunicação e até a confiança entre amigos.
Não é perfeito. Ainda existem problemas de movimentação, algumas mecânicas poderiam ser explicadas melhor e o combate corpo a corpo carece de mais impacto. Mas nenhuma dessas falhas consegue apagar a excelente atmosfera construída ao longo da campanha.
Se você procura um cooperativo diferente, que premie comunicação, planejamento e consiga transformar seu próprio parceiro em motivo de desconfiança, The Mound entrega exatamente isso.
Só não espere que ele faça uma boa primeira impressão.
Porque, ironicamente, esse talvez seja o maior horror que o jogo oferece.
8.5 /10
Jogabilidade 7.5
Gráficos 9.0
História 8.0
Trilha Sonora 9.5
Duração 7.5

Autor

  • Gamer por paixão, programador de profissão, tenta manter de pé o site com sangue e suor, passa a maior parte do dia lidando com codigos e o que resta divide entre família, jogos e postar alguma coisa sem sentido no blog em idioma estranho, sou importado aqui... Joga tudo desde FPS até walking simulator, mas os quebra-cabeças são a sua paixão.

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