Tempo de leitura estimado: 10 minutos.

Existe um tipo específico de jogo indie que não quer te agradar logo de cara. Pelo contrário: ele parece quase testar sua paciência nas primeiras horas. I Hate This Place é exatamente esse tipo de experiência.

E curiosamente, é justamente aí que ele encontra sua identidade.

Disponível no Xbox, o jogo mistura sobrevivência, gerenciamento de recursos e exploração tensa, tudo embalado em uma estética retrô e um humor ácido que parece constantemente lembrar o jogador de uma coisa: você está completamente por conta própria.

Nada de tutorial longo. Nada de mãozinha.

Só você, o mapa… e um monte de problemas.

| O jogo em pílulas

  • Stealth baseado em som: Em I Hate This Place, barulho é praticamente uma mecânica de combate. Cada passo ou ação pode atrair criaturas, então avançar exige cautela real.
  • Exploração sem GPS: Nada de minimapa cheio de ícones. A navegação é feita com um mapa físico, e consultar ele não pausa o jogo, o que cria momentos de vulnerabilidade interessantes.
  • Gestão da fazenda como base da progressão: Entre as expedições, você precisa manter a fazenda funcionando: coletar água, comida e materiais. Esse ciclo vira o motor principal da sobrevivência.
  • Loop de gameplay viciante: Explorar → coletar recursos → voltar para a base → melhorar condições → sair de novo. Simples no papel, mas surpreendentemente eficaz na prática.
  • Dificuldade punitiva (sem autosave): Errou? Morreu? Pode perder bastante progresso. O jogo exige planejamento e paciência, algo que nem todo jogador moderno vai gostar.
  • Problemas técnicos ocasionais: A IA dos monstros às vezes falha, com inimigos presos em paredes ou portas. Não acontece sempre, mas pode quebrar a imersão.

| História em resumo (sem spoilers)

Em I Hate This Place, você chega a uma antiga fazenda familiar esperando encontrar tranquilidade, mas rapidamente percebe que algo muito errado acontece naquele lugar.

Criaturas estranhas rondam a região, eventos inexplicáveis surgem durante a exploração e algumas áreas parecem existir… fora da realidade normal.

Enquanto luta para sobreviver e manter a fazenda funcionando, o jogador descobre fragmentos da história por meio de documentos, artefatos e áreas que parecem ecos de acontecimentos passados.

Aos poucos, o jogo sugere que aquela terra guarda segredos bem mais antigos e perigosos do que qualquer simples infestação de monstros.

| Sobrevivência que realmente exige estratégia

À primeira vista, I Hate This Place pode enganar. Os gráficos simples e o tom bem-humorado passam uma impressão quase casual. Mas a verdade é que o sistema central do jogo é muito mais tático do que parece.

O coração da experiência está na gestão de barulho.

Cada movimento pode denunciar sua posição.
Cada passo mal calculado pode atrair criaturas que você definitivamente não quer encontrar.

Isso transforma a exploração em algo quase paranoico.

Você não anda.
Você calcula.

E quando percebe que um som errado pode virar uma perseguição… o jogo finalmente mostra suas garras.

| Um começo que não vende bem o jogo

Existe um pequeno tropeço estrutural no começo: a introdução no bunker.

Essa primeira parte cumpre seu papel, mas não consegue transmitir bem o que o jogo realmente tem a oferecer. O início pode passar uma impressão um pouco morna — aquele momento clássico em que o jogador pensa: “ok… mas qual é a proposta aqui?”

A percepção muda quando o jogo finalmente se abre e a exploração do mapa começa de verdade. Ao sair do espaço fechado do bunker e encarar o mundo lá fora, a experiência ganha outra dinâmica.

É nesse momento que a tensão começa a aparecer e o jogo encontra seu ritmo. A sensação de deixar a segurança claustrofóbica para trás e explorar um ambiente hostil é justamente onde I Hate This Place passa a mostrar seu verdadeiro potencial.

| Navegação raiz (no melhor e no pior sentido)

Esqueça minimapa cheio de ícones ou GPS estilo jogo AAA.

Aqui a navegação é feita no mapa físico do jogo.

E tem um detalhe importante: abrir o mapa não pausa o jogo.

Isso significa que:

  • Você precisa parar em um lugar relativamente seguro
  • Consultar o mapa
  • Memorizar o caminho
  • Voltar para a exploração

Esse sistema cria duas consequências interessantes:

  1. Vulnerabilidade real: olhar o mapa pode te colocar em perigo.
  2. Memória espacial: aprender o território vira parte da sobrevivência.

Se você souber onde ficam recursos e rotas seguras, sua chance de sobreviver aumenta muito.

Se não souber… boa sorte.

| Um mundo estranho que se explica aos poucos

O worldbuilding de I Hate This Place segue uma abordagem clássica dos indies de exploração: mostrar em vez de explicar. Não existem grandes exposições narrativas ou cutscenes longas. O jogo prefere deixar pistas espalhadas pelo cenário.

Documentos esquecidos, objetos abandonados e pequenas histórias fragmentadas ajudam a montar o quebra-cabeça do que aconteceu naquele lugar. Aos poucos, o jogador percebe que a fazenda e a região ao redor escondem eventos que vão muito além de simples incidentes sobrenaturais.

Essa construção indireta da narrativa funciona bem porque mantém o mistério vivo. O jogo raramente entrega respostas completas, e isso acaba sendo parte do charme.

| A fazenda: o verdadeiro loop do jogo

O diferencial de I Hate This Place é a gestão da fazenda da família.

Entre as expedições perigosas, o jogo te obriga a cuidar da base, algo que vira o verdadeiro motor da progressão.

Você precisa constantemente coletar:

  • água
  • comida
  • materiais
  • suprimentos

Nada disso é opcional.

Essa alternância entre exploração tensa e manutenção da base cria um loop surpreendentemente viciante. Cada item encontrado tem peso real, porque ele pode significar a diferença entre sobreviver mais um dia ou não.

É uma estrutura simples, mas extremamente eficaz.

| Fragmentos de história em um mundo… não exatamente real

Uma das surpresas de I Hate This Place aparece nas missões que levam o jogador para uma espécie de plano paralelo.

Em determinados momentos da campanha, o jogo abandona temporariamente o loop clássico de sobrevivência e joga você em áreas estranhas, quase como ecos de outra realidade. Esses trechos funcionam mais como investigação narrativa do que combate.

Ali, o foco muda:
em vez de sobreviver, você precisa entender o que aconteceu naquele lugar.

Documentos, anotações, objetos abandonados e artefatos espalhados pelo cenário ajudam a reconstruir fragmentos da história, uma abordagem bem típica de jogos que contam sua narrativa por meio do ambiente, sem depender de longas cutscenes.

Não é uma narrativa pesada ou complexa, mas esses momentos dão profundidade ao mundo do jogo e ajudam a explicar por que aquele lugar é tão… errado.

E talvez mais importante: quebram o ritmo da sobrevivência com pequenas doses de mistério.

| Os problemas do port no Xbox

Nem tudo roda de forma perfeita na versão de console de I Hate This Place. Entre algumas escolhas de design mais rígidas e certos tropeços técnicos, há momentos em que a experiência pode gerar frustração.

Um dos pontos mais divisivos é a ausência de autosave. Aqui, morrer pode significar perder progresso real. A exploração vira um exercício constante de tensão, já que qualquer erro pode te mandar de volta ao último salvamento manual. Para alguns jogadores, isso aumenta o peso das decisões e reforça a imersão. Para outros, acaba sendo apenas irritante.

Também aparecem alguns problemas de pathfinding na inteligência artificial. Em certas situações, inimigos podem ficar presos em paredes, travar em portas ou simplesmente caminhar contra obstáculos indefinidamente. Além de quebrar a imersão, esses momentos podem gerar situações estranhas onde a única solução prática é recarregar um save porque a ameaça ficou bugada no cenário.

Outro detalhe que incomoda durante a exploração é um pequeno lag ao atravessar determinadas áreas do mapa. Enquanto o jogador se desloca pelo cenário, o jogo ocasionalmente apresenta breves quedas de desempenho — provavelmente quando novas partes do mapa estão sendo carregadas em segundo plano. Não chega a comprometer a jogabilidade, mas é perceptível e pode quebrar o ritmo da exploração, especialmente em um jogo onde movimentação e atenção ao ambiente são tão importantes.

Nada disso chega a destruir a experiência, mas são pontos que mostram que o jogo poderia ter recebido um pouco mais de polimento técnico.

| Humor ácido e atmosfera estranhamente simpática

Apesar de ser um jogo de sobrevivência, I Hate This Place não leva tudo tão a sério.

O humor aparece nos diálogos, nas situações aleatórias e no próprio tom geral da narrativa. É aquela ironia constante que faz parecer que o jogo está rindo da sua desgraça.

E funciona.

Esse contraste entre tensão e humor ajuda a manter a experiência leve, mesmo quando o jogo está tentando te matar a cada esquina.

| O que sobrevive e o que morre

Prós

  • Sistema de som e stealth realmente estratégico
  • Gestão de recursos envolvente
  • Loop de sobrevivência bem estruturado
  • Humor ácido que dá personalidade ao jogo

Contras

  • Início lento que não mostra o potencial do jogo
  • Ausência de autosave pode frustrar
  • Bugs de IA ocasionais quebram a imersão
  • Pequenos lags ao carregar partes do mapa durante a exploração

| Vale a pena jogar I Hate This Place?

Depende muito do tipo de jogador que você é.

Se você gosta de jogos que explicam tudo, têm autosave constante e marcam cada objetivo no mapa, talvez I Hate This Place pareça um pouco áspero demais. O jogo exige atenção, memória espacial e uma boa dose de paciência.

Por outro lado, se você curte experiências onde cada decisão tem peso, a exploração pede cautela e o mundo se revela aos poucos através de pistas ambientais, o jogo entrega exatamente esse tipo de desafio.

Ele não tenta competir com grandes produções em escala ou espetáculo. A proposta aqui é outra: sobrevivência tensa, progressão baseada em recursos e um mundo estranho que você precisa aprender a entender sozinho.

Não é perfeito, o início lento e alguns problemas técnicos deixam claro que estamos diante de um indie com limitações. Mas quando o loop de exploração, coleta e manutenção da base engrena, o jogo encontra um ritmo próprio que prende.

No fim, I Hate This Place é fácil de resumir:

Você vai reclamar.
Vai morrer algumas vezes.
E provavelmente vai continuar jogando mesmo assim.

Para quem gosta desse tipo de desafio, vale a pena sim encarar a fazenda, mesmo que ela claramente não queira você lá.

| O veredito de quem sobreviveu

I Hate This Place

I Hate This Place é um daqueles indies que não tenta agradar todo mundo, e talvez seja exatamente por isso que funciona.
Ele exige paciência, aprendizado do mapa e tolerância para alguns tropeços técnicos. Mas quem passar da primeira hora morna encontra um sistema de sobrevivência surpreendentemente sólido, com exploração tensa e um loop de gameplay bem construído.
Não é um jogo confortável.
Mas é justamente isso que o torna interessante.
No fim das contas, é o tipo de experiência que você passa boa parte do tempo reclamando…
e ainda assim continua jogando.
Como o próprio nome sugere.
7.5 /10
Jogabilidade 8.0
Gráficos 7.0
História 7.0
Trilha Sonora 7.5
Duração 7.5


Autor

  • Gamer por paixão, programador de profissão, tenta manter de pé o site com sangue e suor, passa a maior parte do dia lidando com codigos e o que resta divide entre família, jogos e postar alguma coisa sem sentido no blog em idioma estranho, sou importado aqui... Joga tudo desde FPS até walking simulator, mas os quebra-cabeças são a sua paixão.

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