Alguns jogos parecem ter sido montados por uma equipe que passou meses calculando a posição perfeita de cada elemento na tela. Ground Zero Hero claramente não recebeu esse memorando.

Desenvolvido por Rowan Edmondson e publicado pela ressuscitada Acclaim, o jogo pega a fórmula já conhecida de Vampire Survivors, joga dentro de um liquidificador com Fallout, desenhos de humor ácido e uma quantidade preocupante de cogumelos alucinógenos. O resultado é um bullet heaven que parece ter sido desenvolvido sob a premissa de que, se alguma coisa pode explodir, sofrer mutação ou ganhar mais pernas, então provavelmente deveria.

E funciona.

Ground Zero Hero coloca o jogador em um mundo pós-apocalíptico tomado por criaturas mutantes. A ideia básica é familiar: andar pelo mapa, eliminar hordas automaticamente e coletar os recursos deixados pelos inimigos para ficar progressivamente mais poderoso. A diferença está justamente no que acontece depois.

Aqui, os inimigos deixam uma espécie de gosma radioativa que serve como combustível para suas mutações. E elas podem transformar completamente a maneira como uma partida se desenvolve.

Você pode criar ovos explosivos, cuspir fogo, disparar lasers, ganhar pernas adicionais, criar uma aura radioativa ou simplesmente virar uma aberração cada vez mais eficiente em transformar centenas de inimigos em matéria orgânica fluorescente.

É o tipo de progressão que recompensa tanto planejamento quanto a vontade de apertar o botão mental do “vamos ver no que dá”.

| O que saber sobre essa apocalipse

  • Mutações transformam o próprio personagem em arma, com pernas extras, tentáculos, ovos explosivos, fogo, lasers e outras bizarrices.
  • O ciclo de dia e noite muda completamente o ritmo das partidas, colocando inimigos mais perigosos na tela depois que o sol desaparece.
  • Bunkers funcionam como pontos estratégicos de segurança, permitindo recuperar vida e até salvar a partida — algo incomum no gênero.
  • Cada fase exige 9.999 inimigos mortos antes do confronto com o chefe, mantendo as partidas relativamente curtas, geralmente na casa dos 15 minutos.
  • O mundo é um festival de absurdo, com vacas furiosas que podem ser montadas, ChickenMan, cofres, criaturas mutantes e situações que parecem ter sido escolhidas jogando dados.
  • A personalidade é maior que a profundidade: há boas ideias e um estilo visual marcante, mas a variedade e o balanceamento começam a mostrar suas limitações depois de algumas horas.

| Trailer

| Um Vampire Survivors que tomou radiação

Não existe muita necessidade de reinventar a roda quando ela já funciona tão bem.

A estrutura de Ground Zero Hero é familiar para qualquer pessoa que tenha passado algumas centenas de horas tentando transformar uma tela cheia de inimigos em uma calculadora de dano. O personagem se movimenta livremente enquanto suas habilidades cuidam dos inimigos, e a coleta de recursos permite escolher novas mutações durante a partida.

A diferença é que o jogo não trata essas habilidades apenas como armas.

Elas são, literalmente, mutações do personagem.

A cada evolução, você escolhe entre opções que podem mudar sua build de maneiras bastante diferentes. Uma mutação pode aumentar sua mobilidade; outra cria uma área de dano; outra adiciona um novo ataque. Algumas são bastante convencionais. Outras parecem ter sido escolhidas depois de alguém perguntar:

“E se ele botasse ovos explosivos?”

E a resposta foi simplesmente “sim”.

O sistema funciona porque mantém aquela sensação clássica dos survivors-like: você começa praticamente indefeso e termina a partida parecendo uma entidade radioativa que não deveria existir segundo nenhuma legislação ambiental.

| O dia acaba. A diversão começa.

O elemento que mais ajuda Ground Zero Hero a se diferenciar é o ciclo de dia e noite.

Durante o dia, a partida permite explorar, acumular recursos e construir sua mutação com relativa tranquilidade. Quando a noite chega, porém, o jogo começa a retirar algumas das luvas.

Criaturas mais perigosas aparecem e a quantidade de ameaças aumenta. Vampiros, múmias, lobisomens e outras aberrações transformam áreas anteriormente confortáveis em verdadeiras armadilhas.

E existe uma decisão interessante nesse momento: continuar correndo o risco ou procurar um abrigo?

Os bunkers funcionam como zonas de segurança onde é possível recuperar o fôlego e até salvar o progresso da partida. O problema é que entrar em segurança pode significar abrir mão da gosma radioativa que ainda estiver espalhada pelo cenário.

É uma pequena escolha de risco e recompensa que funciona muito bem dentro do gênero.

Você pode tentar aproveitar até o último segundo da noite para ficar mais poderoso.

Ou pode admitir que está cercado por uma quantidade obscena de criaturas e correr para o bunker.

A segunda opção costuma ser mais inteligente.

E justamente por isso é a menos divertida.

| 10.000 mortes depois…

Outro detalhe interessante é que as partidas não avançam simplesmente porque você sobreviveu durante determinado período.

É preciso atingir uma quantidade específica de inimigos mortos para liberar o chefe da fase — 10.000 eliminações.

Isso muda um pouco a mentalidade do jogador.

Não basta sobreviver. É preciso matar.

Muito.

O objetivo passa a ser encontrar uma combinação de mutações capaz de transformar o personagem em uma máquina de processamento de cadáveres. Quanto mais eficiente você fica, mais rapidamente o contador sobe e mais próximo fica o confronto contra o chefe.

É uma solução simples, mas ajuda a evitar aquela sensação de estar apenas andando em círculos enquanto espera o relógio chegar ao fim.

O problema é que, depois de conhecer suas mecânicas, fica evidente que Ground Zero Hero não possui a mesma profundidade de alguns dos gigantes do gênero. Uma análise do jogo, por exemplo, aponta que existem cinco fases e um modo Endless, mas faltam modos alternativos, multiplayer ou cooperativo e uma variedade maior de sistemas para sustentar a experiência por dezenas de horas.

E isso é importante.

Porque Ground Zero Hero é muito divertido.

Só não é necessariamente tão profundo quanto poderia ser.

| Quando uma vaca vira uma arma

Se existe uma coisa que o jogo entende perfeitamente, é que o apocalipse precisa ser levado a sério.

Mas não muito a sério.

Em determinados momentos, o cenário oferece situações que parecem ter saído de uma sessão de brainstorming realizada às três da manhã.

É possível encontrar montarias capazes de atropelar hordas de inimigos. Algumas delas são tão absurdas que acabam funcionando como armas temporárias, permitindo atravessar grupos inteiros antes de terminar em uma explosão.

E então existe o ChickenMan.

Não vou explicar.

Parte da graça é descobrir por conta própria o motivo pelo qual um homem-frango aparentemente pertence a esse ecossistema radioativo.

O mesmo vale para cogumelos capazes de alterar a percepção do mundo, armadilhas ambientais, mísseis não detonados e nuvens de gás tóxico.

O cenário não está ali apenas para servir como espaço vazio entre uma horda e outra. Ele ocasionalmente interfere na partida e cria pequenas situações emergentes que tornam cada run um pouco diferente.

Não é uma revolução no gênero.

Mas é personalidade.

| A estética de um desenho animado depois do fim do mundo

Visualmente, Ground Zero Hero acerta em cheio no que pretende fazer.

O jogo aposta em personagens desenhados à mão, cores fortes e criaturas com designs exagerados. A inspiração em animações como The Simpsons e Rick and Morty é bastante evidente, mas o resultado não parece simplesmente uma tentativa de reproduzir esses desenhos.

Existe uma identidade própria nessa mistura de pós-apocalipse, mutações grotescas e humor absurdo.

E isso é particularmente importante em um gênero onde a tela inevitavelmente termina tomada por inimigos, projéteis, efeitos e números.

Mesmo com centenas de criaturas ao mesmo tempo, o jogo consegue manter uma boa leitura visual na maior parte do tempo.

Nem tudo é perfeito, entretanto.

A apresentação é charmosa, mas relativamente simples. A variedade visual e mecânica não acompanha completamente a quantidade de horas que o gênero costuma exigir, e algumas análises apontam justamente essa falta de profundidade como uma das principais limitações do jogo.

É bonito.

É engraçado.

Mas eventualmente você começa a perceber que já viu boa parte do que ele tem para mostrar.

| O que a mutação trouxe de bom e o que foi um desastre

Prós

  • Sistema de mutações criativo e divertido
  • Excelente combinação entre ação e progressão
  • Ciclo de dia e noite funciona muito bem
  • Abrigos são uma boa adição ao gênero
  • Humor visual consegue criar situações memoráveis
  • Grande quantidade de inimigos sem destruir completamente a legibilidade
  • Ótimo para partidas rápidas
  • Preço de entrada relativamente baixo

Contras

  • Pouca variedade de conteúdo para quem busca dezenas de horas
  • Falta de multiplayer ou cooperativo
  • Poucos modos alternativos
  • Algumas ideias interessantes poderiam ser mais exploradas
  • A progressão eventualmente perde parte do impacto
  • Chefes e fases não oferecem tanta variedade quanto poderiam

| Vale a pena jogar?

Sim — principalmente se você gosta de Vampire Survivors, Brotato e outros jogos do gênero, mas está procurando alguma coisa com uma identidade própria.

Ground Zero Hero não tenta esconder suas referências. Ele sabe exatamente de onde veio e, em vez de fingir que está reinventando o gênero, adiciona algumas boas ideias em cima de uma fórmula extremamente eficiente.

O ciclo de dia e noite, os bunkers, o sistema de mutações e as interações absurdas do cenário são suficientes para fazer com que cada partida tenha personalidade.

Por outro lado, é difícil ignorar que o jogo não possui a mesma profundidade ou variedade dos melhores representantes do gênero. A própria recepção crítica tem refletido essa divisão: há avaliações bastante positivas — incluindo 8/10 da GameSpew e 8,5/10 da Evilgamerz — mas também análises que apontam justamente a falta de variedade como seu principal problema.

Então, se você quer um bullet heaven para jogar por algumas boas horas, experimentar builds malucas e rir da quantidade de absurdos acontecendo na tela, é uma recomendação fácil.

Se está procurando o próximo jogo que vai consumir 200 horas da sua vida…

Talvez seja melhor guardar o frasco de radiação.

| Gameplay

| Veredito de quem mudou centenas de vezes

Ground Zero Hero

Ground Zero Hero não é o mutante mais poderoso do gênero.
Mas é um dos mais divertidos.
Rowan Edmondson conseguiu pegar uma fórmula extremamente conhecida e colocar personalidade suficiente nela para que o resultado não pareça apenas mais um clone de Vampire Survivors. A combinação entre mutações, ciclo de dia e noite, abrigos e eventos absurdos cria uma experiência que sabe exatamente qual é sua proposta.
O problema está na longevidade.
Depois que a novidade passa, fica claro que faltam mais fases, modos e sistemas capazes de sustentar o jogo por muito tempo. E é justamente aí que ele fica atrás dos gigantes do gênero.
Ainda assim, existe algo admirável em um jogo que não tem vergonha de ser completamente idiota quando poderia simplesmente ser mais um roguelite genérico.
Porque, convenhamos:
quantos jogos deixam você cavalgar uma vaca mutante enquanto uma horda de vampiros tenta arrancar sua cabeça?
Poucos.
E, às vezes, é exatamente disso que precisamos.
8.0 /10
Jogabilidade 7.0
Gráficos 9.5
História 8.0
Trilha Sonora 7.5
Duração 7.5

Autor

  • Gamer por paixão, programador de profissão, tenta manter de pé o site com sangue e suor, passa a maior parte do dia lidando com codigos e o que resta divide entre família, jogos e postar alguma coisa sem sentido no blog em idioma estranho, sou importado aqui... Joga tudo desde FPS até walking simulator, mas os quebra-cabeças são a sua paixão.

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