Se a sua ideia de uma noite de sexta-feira perfeita envolve andar agachado por um gramado escuro enquanto escuta uma respiração pesada no fone de ouvido, parabéns: Halloween: The Game foi feito sob medida para testar a sua saúde mental.
A IllFonic pegou o clássico de John Carpenter, colocou Michael Myers em um multiplayer assimétrico 1v4 e decidiu que Haddonfield não seria apenas um cenário. A cidade funciona como um grande tabuleiro vivo, com moradores, polícia, armas improvisadas e oportunidades suficientes para transformar cada partida em uma pequena história de sobrevivência.
E isso é importante porque Halloween não tenta simplesmente transformar Michael em mais um assassino de Dead by Daylight. A proposta é fazer você se sentir dentro daquele subúrbio onde o maior problema da noite deveria ser escolher uma fantasia – até perceber que o vizinho de máscara branca está parado no meio da rua olhando para você.
O problema é que toda essa ambição chega acompanhada daquela velha tradição dos jogos online: bugs, situações estranhas e alguns momentos em que o assassino parece estar obedecendo às leis da física apenas por cortesia.
| Guia turistico de Haddonfield
- Mapas detalhados, iluminação sombria e uma atmosfera que transforma cada quintal em potencial emboscada.
- Furtividade, presença e pressão constante fazem o assassino parecer mais do que simplesmente um jogador correndo atrás de quatro vítimas.
- Moradores controlados pela IA podem ser salvos, convencidos, armados ou, na maioria das vezes, fazer exatamente a coisa errada.
- Quem consegue escapar pode continuar participando da partida e até retornar armado para ajudar os sobreviventes.
- Apresenta as mecânicas, expande a experiência e evita que o jogador seja simplesmente jogado no multiplayer.
- Problemas de física, animações e otimização tiram parte do impacto de uma experiência que, tecnicamente, poderia ser muito mais refinada.
| Trailer
| Haddonfield: O Subúrbio Onde Ninguém Deveria Morar
A melhor coisa que Halloween: The Game faz é entender que o horror de Halloween nunca dependeu de monstros pulando da tela.
Michael Myers funciona porque ele simplesmente está lá.
Uma figura parada ao fundo da rua.
Uma sombra atrás de uma janela.
Um vulto atravessando o quintal.
Uma respiração no escuro.
Haddonfield foi construída em torno dessa ideia.
Os mapas são detalhados, a iluminação cinematográfica ajuda a criar zonas de visibilidade bastante diferentes e o uso de Unreal Engine 5 deixa casas, jardins, ruas e interiores com uma aparência convincente. A própria IllFonic destaca iluminação cinematográfica, NPCs mais realistas e sistemas dinâmicos como parte da proposta técnica do jogo.
Mas o mérito não está simplesmente em deixar tudo bonito.
Está em fazer você desconfiar do que está vendo.
Uma rua aparentemente segura pode virar uma armadilha em segundos. Uma casa pode oferecer proteção ou simplesmente criar outro lugar para Michael aparecer atrás de você. E quanto mais você conhece o mapa, mais percebe que fugir não significa necessariamente estar seguro.
É o tipo de design que transforma uma caminhada de vinte metros em uma decisão estratégica.
E, eventualmente, em uma corrida desesperada.
| O Shape Está em Casa
Jogar como Michael Myers é provavelmente o principal motivo para muita gente sequer olhar para o jogo.
E faz sentido.
A fantasia de colocar a máscara, perseguir pessoas e reproduzir a presença ameaçadora do personagem é muito bem explorada. Michael não depende apenas de correr atrás dos sobreviventes com uma faca. O jogo utiliza furtividade, sombras e habilidades próprias para fazer dele uma ameaça que pode aparecer de maneiras diferentes.
Isso cria uma diferença interessante em relação ao típico “assassino corre, sobrevivente corre mais”.
Michael precisa trabalhar com o ambiente.
Observar.
Esperar.
Escolher o momento.
E, principalmente, resistir à tentação de transformar cada encontro em uma perseguição de Tom & Jerry.
Quando funciona, é exatamente o que você esperaria de um jogo baseado em Halloween: você vê Michael antes de perceber que está vendo Michael.
Quando não funciona, bem…
Você descobre que o Bicho-Papão também pode parecer um boneco atravessando uma cerca de maneira pouco convincente.
| Quatro Sobreviventes, Um Problema de Cada Vez
Do outro lado estão os Heróis de Haddonfield.
A estrutura é conhecida: quatro jogadores precisam sobreviver enquanto um jogador assume o papel de Michael. Mas a IllFonic colocou uma quantidade considerável de sistemas em volta dessa fórmula.
Os sobreviventes podem encontrar armas e objetos espalhados pelo cenário, alertar moradores, pedir ajuda à polícia e até utilizar NPCs armados para criar oportunidades de fuga. O jogo coloca os moradores e as patrulhas policiais como elementos estratégicos da partida, não só como figurantes.
É aqui que Halloween tenta fugir da fórmula mais previsível do gênero.
Você não está simplesmente fazendo objetivo A para abrir porta B.
Você está tentando controlar uma pequena comunidade enquanto um assassino praticamente indestrutível circula pela vizinhança.
E os NPCs são, ao mesmo tempo, uma das ideias mais interessantes e uma das fontes mais confiáveis de estresse.
Porque você pode tentar salvá-los.
Pode tentar armá-los.
Pode tentar convencê-los a fazer alguma coisa útil.
Mas, como acontece com NPCs em praticamente todos os jogos da história, existe sempre a possibilidade de que eles decidam correr exatamente na direção que você acabou de pedir para evitarem.
| O Game Loop: Sobreviver Primeiro, Entender Depois
A estrutura básica continua sendo familiar.
Entrar em Haddonfield.
Explorar.
Encontrar recursos.
Ajudar moradores.
Tentar entender onde Michael está.
E descobrir uma maneira de sair vivo.
A diferença está no quanto o jogo consegue colocar pequenas variáveis no caminho.
Um sobrevivente pode chamar a polícia.
Moradores podem reagir quando ameaçados.
Patrulhas podem se tornar mais presentes.
NPCs podem ser equipados.
E Michael pode usar o ambiente para transformar uma situação aparentemente controlada em um desastre completo.
Isso faz com que duas partidas aparentemente iguais possam terminar de maneiras completamente diferentes.
E é exatamente esse tipo de imprevisibilidade que um jogo assim precisa.
Porque se cada partida fosse apenas uma lista de objetivos, Michael Myers seria rapidamente reduzido a um funcionário de segurança pública com uma faca.
| A Campanha Solo: A Surpresa Que Faz Sentido
A existência de uma campanha single-player é uma das decisões mais acertadas.
Em vez de tratar o modo solo como um simples tutorial antes de mandar o jogador para o multiplayer, Halloween: The Game apresenta uma história independente baseada nos acontecimentos de Halloween, permitindo acompanhar aquela noite também pelo ponto de vista de Michael Myers.
É uma ótima porta de entrada para quem não conhece o gênero.
E também funciona para quem conhece.
Porque existe algo naturalmente curioso em experimentar a noite do filme original do outro lado da máscara.
Não espere uma campanha gigantesca capaz de rivalizar com um Resident Evil. A função dela é outra.
Ela serve para apresentar mecânicas, estabelecer o universo e, principalmente, mostrar que Halloween não foi pensado exclusivamente para quem já passou centenas de horas em jogos assimétricos.
É uma porta de entrada.
E uma bastante competente.
| O Problema de Todo Jogo Online: O Jogo
Infelizmente, Halloween: The Game também lembra que uma boa ideia não impede um lançamento de ter problemas técnicos.
Há momentos em que a apresentação é excelente e outros em que o jogo parece querer lembrar que ainda estamos falando de software.
Animações estranhas, colisões questionáveis e situações em que personagens ou objetos não se comportam exatamente como deveriam quebram um pouco da tensão.
E isso pesa mais aqui do que em outros jogos.
Porque horror depende de imersão.
Se Michael Myers está parado no fim da rua, você quer pensar:
“Meu Deus, ele está ali.”
Não:
“Por que ele está flutuando?”
Felizmente, esses problemas não anulam a experiência. Mas são suficientemente perceptíveis para impedir que Halloween seja considerado uma adaptação praticamente impecável.
É um jogo que parece ter uma base muito boa esperando alguns meses de correções.
| A Verdadeira Força Está na Atmosfera
É fácil olhar para Halloween: The Game e resumir tudo como “mais um jogo de terror assimétrico”.
Seria injusto.
A estrutura realmente não é revolucionária. Você tem um assassino, sobreviventes, objetivos, exploração e fuga.
O diferencial está em como o universo de Halloween é usado para alimentar essa fórmula.
Michael Myers não precisa aparecer o tempo todo.
Na verdade, quanto menos você o vê, melhor.
A tensão nasce da possibilidade.
Você sabe que ele está em algum lugar.
Só não sabe onde.
E enquanto tenta descobrir, precisa lidar com moradores, recursos, armas, polícia, objetivos e quatro pessoas diferentes tomando decisões potencialmente ruins.
Ou seja: exatamente como deveria ser uma noite em Haddonfield.
| Onde Haddonfield Brilha e Onde Dá Vontade de Chamar a Polícia
Prós
- Iluminação, som e ambientação conseguem reproduzir muito bem a sensação de estar dentro de um filme de Halloween.
- Jogar como o Shape é divertido e, principalmente, diferente de simplesmente controlar um assassino genérico.
- NPCs, polícia, armas e elementos do cenário tornam cada partida menos previsível.
- A Campanha solo é uma boa porta de entrada para entender as mecânicas e explorar o universo sem depender de matchmaking.
- As interações entre sobreviventes, NPCs, polícia e Michael criam situações que dificilmente se repetem exatamente da mesma maneira.
- O jogo entende que o terror de Halloween está mais na tensão e na perseguição do que em sustos baratos.
- Poder direcionar a experiência para jogar como sobrevivente ou assassino evita partidas indesejadas e dá mais controle ao jogador.
Contras
- Colisões, animações e situações visualmente estranhas quebram a imersão justamente quando ela deveria estar no auge.
- Algumas áreas e situações ainda demonstram que o jogo precisa de otimização.
- Apesar das boas ideias, a estrutura fundamental continua bastante conhecida para quem já joga horror assimétrico.
- A ideia é boa, mas a inteligência artificial ocasionalmente transforma sobrevivência em serviço de escolta.
- Quando os sistemas falham ou a perseguição fica previsível, parte da magia desaparece.
- A combinação de Haddonfield, NPCs, polícia e sobreviventes poderia gerar situações ainda mais profundas com futuras atualizações.
- 1 vs. 4 significa também que o jogo não começa até ter 5 pessoas, isso em determinados contextos, pode complicar a jogada.
| Vale a pena jogar?
Sim – especialmente se você gosta de horror assimétrico ou é fã do Halloween original.
Halloween: The Game não inventa um novo gênero, mas entende suficientemente bem o material de origem para fazer a fórmula funcionar dentro do universo de Michael Myers.
O modo solo ajuda bastante na apresentação, o multiplayer tem espaço para partidas emergentes e Haddonfield funciona como algo maior do que um simples mapa.
O problema está no estado técnico.
Se você estiver disposto a tolerar bugs e algumas decisões estranhas de física enquanto a IllFonic trabalha nas correções, existe bastante diversão aqui.
Agora, se você exige acabamento impecável no lançamento, talvez seja melhor esperar alguns patches.
E, sinceramente, talvez seja melhor.
Michael Myers não tem pressa.
Você também não precisa ter.
| Gameplay
| O veredito de quem mudou para Haddonfield
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