Existe uma diferença enorme entre assistir a um trailer e finalmente enxergar um jogo funcionando.

Hoje foi esse dia.

Depois de anos de trailers, imagens, rumores, especulações e, infelizmente, vazamentos, a Rockstar finalmente abriu a cortina e mostrou uma versão muito mais extensa de GTA VI.

Foram cerca de 26 minutos entre cenas, momentos de exploração e gameplay rodando diretamente no PlayStation 5, segundo o próprio aviso exibido no material.

E, pela primeira vez, dá para começar a responder uma pergunta que estava ficando cada vez mais difícil de ignorar:

GTA VI realmente parece ser a sequência que GTA V merece?

Minha resposta, depois de assistir ao material, é: aparentemente, sim.

Mas existe um pequeno detalhe.

É preciso lembrar que estamos olhando para uma demonstração controlada.

E a história dos videogames já ensinou que trailer, gameplay de divulgação e produto final nem sempre são exatamente a mesma coisa.

| A Rockstar passou por um inferno antes de mostrar isso

Os últimos dias não foram exatamente tranquilos para a Rockstar.

Muito pelo contrário.

A empresa passou por uma nova onda de vazamentos, com informações aparentemente relacionadas a operações do estúdio na Índia, além de toda aquela novela envolvendo hackers, criptomoedas e um personagem que parecia ter saído de uma versão particularmente ruim de Batman.

Não vou entrar no mérito do conteúdo vazado.

Aqui no Gamerscore Brasil, inclusive, não demos espaço para aquilo.

Não porque vazamentos deixem de existir quando decidimos ignorá-los, mas porque existe uma diferença entre acompanhar o desenvolvimento de um jogo e simplesmente consumir material que não deveria ter sido publicado.

Prefiro esperar a desenvolvedora mostrar o que quer mostrar.

E, ironicamente, depois de tanto material vazado circulando pela internet, o que a Rockstar decidiu mostrar oficialmente acabou sendo muito mais interessante.

Porque agora existe contexto.

Existe direção.

Existe intenção.

E, principalmente, existe um jogo.

| O GTA que começou em 2D agora quer simular um mundo inteiro

Eu acompanho GTA praticamente desde o começo.

E isso muda completamente a maneira como observo GTA VI.

Eu ainda lembro de quando Grand Theft Auto era aquele jogo com visão de cima, gráficos que hoje parecem pertencer a outra civilização e uma cidade que, na época, já parecia gigantesca.

Depois vieram GTA II, GTA III, Vice City, San Andreas, GTA IV

Até chegarmos ao absurdo que foi GTA V.

Só que existe uma coisa particularmente impressionante em GTA VI:

não é apenas o tamanho do mundo. É a quantidade de coisas que parecem estar acontecendo dentro dele.

E isso é muito mais importante.

| Um cachorro pode importar para a sua reputação

Uma das coisas que mais me chamou atenção nessa demonstração não foi uma explosão.

Nem um carro.

Nem uma perseguição.

Foi algo muito mais simples.

A sensação de que pequenas ações podem ter algum tipo de consequência dentro daquele mundo.

Você pode interagir com pessoas.

Pode fazer carinho em um cachorro.

Pode construir uma reputação.

Pode ser reconhecido.

E aparentemente o jogo não trata o protagonista como aquele ser humano universalmente anônimo que pode entrar em qualquer lugar, roubar qualquer carro e cometer qualquer crime sem que ninguém perceba.

Os personagens parecem prestar atenção.

E isso pode mudar completamente a maneira como jogamos.

| A polícia parece finalmente estar olhando para VOCÊ

Essa talvez seja uma das evoluções mais interessantes.

Em muitos jogos de mundo aberto, a polícia funciona basicamente assim:

Você comete um crime.

O jogo aperta um botão invisível.

Parabéns.

Agora o universo inteiro sabe que você é procurado.

Em GTA VI, a impressão deixada pelo gameplay é diferente.

Policiais parecem reconhecer características do personagem.

Rosto.

Roupa.

Carro.

Companhia.

Contexto.

Isso parece pequeno.

Não é.

Porque transforma o sistema policial de uma simples mecânica de perseguição em parte do mundo.

Se você comete um crime e consegue escapar, a situação não necessariamente termina quando as estrelas desaparecem.

Talvez aquele policial reconheça você depois.

Talvez determinado carro seja associado ao personagem.

Talvez uma mudança de roupa realmente tenha algum propósito além de trocar a aparência.

É justamente esse tipo de detalhe que faz um mundo virtual parecer menos virtual.

| E então existem os acidentes de trânsito

Outra coisa que chamou atenção foi a maneira como o próprio mundo parece criar problemas para o jogador.

Acidentes podem acontecer.

Estradas podem ficar bloqueadas.

O trânsito pode ser afetado.

E isso significa que nem tudo precisa existir exclusivamente para facilitar a vida do jogador.

Parece óbvio, mas não é.

Muitos mundos abertos são enormes, mas funcionam como parques temáticos.

Você chega.

A missão aparece.

Você faz.

Vai embora.

GTA VI parece estar tentando fazer algo diferente:

criar uma cidade que continue acontecendo enquanto você não está olhando.

E essa é uma diferença gigantesca.

| O fundo do mar também entrou na brincadeira

Como se a superfície já não fosse suficientemente grande, a Rockstar resolveu lembrar que existe água.

E aparentemente a exploração submarina também fará parte dessa experiência.

Isso pode parecer apenas mais uma característica para colocar na lista de funcionalidades.

Mas existe algo interessante aí.

Quando um jogo permite explorar terra, estradas, cidades, interiores, água e fundo do mar, ele começa a deixar de ser apenas um mapa.

Começa a ser um ambiente.

E é exatamente isso que GTA sempre tentou fazer em escala cada vez maior.

| Dois protagonistas parecem ser a solução perfeita

E temos os protagonistas.

Jason e Lucia.

A possibilidade de alternar entre os dois não é exatamente uma novidade na franquia.

GTA V já fazia isso.

Mas o que parece interessante em GTA VI é a maneira como essa troca pode estar integrada à própria aventura.

Você pode estar com um personagem.

A situação muda.

Você troca.

O contexto muda.

A missão continua.

E isso cria uma possibilidade enorme para contar histórias sem transformar tudo em uma sequência linear de missões.

Além disso, temos corridas de carro, motos, brigas de rua, perseguições e tudo aquilo que esperamos de um GTA.

Só que agora inserido nesse mundo aparentemente muito mais reativo.

| O mapa é grande. Mas isso já não é suficiente

Aqui está uma coisa que considero importante.

Não me impressiona mais um mapa gigantesco.

Já tivemos mapas enormes.

E muitos deles são enormes justamente porque alguém decidiu colocar quilômetros de nada entre um ponto de interesse e outro.

O que realmente importa é:

o que acontece nesses quilômetros?

Se GTA VI conseguir manter a densidade de eventos, personagens, interações e sistemas que vimos nesse gameplay por todo o mapa, aí sim teremos algo especial.

Porque tamanho sem conteúdo é apenas uma forma muito sofisticada de caminhar.

E ninguém precisa de mais um simulador de caminhada de 150 km.

Ainda mais quando temos carros.

| GTA VI parece estar sendo construído para durar uma década

E talvez essa seja a parte mais importante de todas.

GTA V não foi simplesmente um jogo.

Ele virou uma plataforma.

Foi lançado em 2013.

Treze anos depois, ainda estamos falando dele.

Ainda existe GTA Online.

Ainda existem jogadores.

Ainda existe conteúdo.

Ainda existe dinheiro entrando.

E, conhecendo a Rockstar, seria ingenuidade imaginar que GTA VI está sendo construído pensando apenas nos primeiros meses depois do lançamento.

Esse jogo provavelmente precisa sustentar uma geração inteira.

Talvez mais.

Por isso, quando vejo sistemas de reputação, personagens reativos, polícia mais inteligente, eventos dinâmicos, exploração, múltiplas atividades e um mundo aparentemente mais vivo, começo a entender a escala da ambição.

Não estamos falando apenas de fazer um GTA maior.

Estamos falando de construir um mundo no qual seja possível continuar encontrando coisas para fazer durante anos.

E isso é muito mais difícil.

| Mas calma. Ainda é uma demonstração

Agora vem a parte em que eu coloco o pé no freio.

Porque é muito fácil assistir a 26 minutos de gameplay e declarar que acabamos de assistir ao melhor jogo da história.

Não.

Ainda não.

Gameplay de apresentação é material cuidadosamente selecionado.

A desenvolvedora escolhe o que mostrar.

Escolhe o enquadramento.

Escolhe os momentos.

Escolhe o ritmo.

Escolhe o que fica de fora.

E isso vale para absolutamente qualquer jogo.

Já vimos demonstrações incríveis que não representavam perfeitamente o produto final.

Portanto, tudo que estou dizendo aqui precisa ser entendido como uma leitura do que a Rockstar decidiu apresentar.

Não como uma garantia.

| Mas se isso for realmente GTA VI…

Aí a conversa muda.

Porque existe uma diferença entre um jogo que tem um mapa enorme e um jogo que faz você acreditar que aquele mapa existe independentemente da sua presença.

E foi justamente essa sensação que GTA VI me passou.

Eu vi um mundo em que pessoas parecem ter comportamentos próprios.

Policiais parecem observar características do jogador.

Acidentes podem alterar o trânsito.

Animais fazem parte do ambiente.

Existem atividades espalhadas pelo mapa.

Existem dois protagonistas.

Existe exploração.

Existe uma quantidade absurda de detalhes.

E tudo isso dentro de um mundo que, aparentemente, quer continuar funcionando mesmo quando você simplesmente decide dirigir sem objetivo por alguns minutos.

Para quem acompanha GTA desde aquele jogo 2D visto de cima, é difícil não ficar impressionado.

Nós saímos de uma cidade desenhada em duas dimensões para um mundo no qual a Rockstar está tentando simular comportamento social, trânsito, reputação, exploração e relações entre personagens.

Isso é uma evolução absurda.

| Talvez finalmente tenhamos o sucessor que GTA V estava esperando

GTA V foi lançado há tanto tempo que uma geração inteira cresceu jogando esse jogo.

Agora GTA VI precisa fazer algo muito difícil:

não apenas ser melhor.

Precisa justificar a espera.

E, pelo que foi mostrado hoje, existe potencial para isso.

Se essa quantidade de detalhes realmente estiver espalhada pelo mundo inteiro…

Se os sistemas funcionarem de maneira consistente…

Se as escolhas e interações tiverem consequências reais…

Se os personagens forem tão reativos quanto parecem…

Se a Rockstar conseguir transformar tudo isso em um mundo coeso…

Então sim.

GTA VI pode ser exatamente o tipo de sequência que GTA V precisava.

Não porque terá gráficos melhores.

Não porque o mapa será maior.

Não porque teremos mais carros, armas ou atividades.

Mas porque pode finalmente transformar aquilo que GTA sempre fez bem — criar caos — em algo ainda mais interessante:

um mundo que reage ao caos que nós mesmos criamos.

E talvez esse seja o verdadeiro salto entre GTA V e GTA VI.

Agora falta descobrir se a Rockstar consegue entregar tudo isso quando o jogo estiver nas nossas mãos.

Porque trailer é trailer.

Gameplay de apresentação é gameplay de apresentação.

E videogame, infelizmente, ainda precisa ser jogado.

Autor

  • Gamer por paixão, programador de profissão, tenta manter de pé o site com sangue e suor, passa a maior parte do dia lidando com codigos e o que resta divide entre família, jogos e postar alguma coisa sem sentido no blog em idioma estranho, sou importado aqui... Joga tudo desde FPS até walking simulator, mas os quebra-cabeças são a sua paixão.

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